7. ARTES E ESPETCULOS 31.10.12

1. CINEMA  O BOND DO TIGRO
2. CINEMA  TANTA MGOA
3. LIVROS  A MAIS GENIAL DAS AUSNCIAS
4. TELEVISO  NO D PARA RELAXAR
5. TELEVISO  PASSARELA INGLRIA
6. VEJA RECOMENDA
7. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
8. ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  DATA VENIA

1. CINEMA  O BOND DO TIGRO
Em Operao Skyfall, 007 a toda hora ouve que est velho e obsoleto. Pura provocao: este  o melhor dos filmes da srie, e Daniel Craig agora  dono absoluto do personagem.
ISABELA BOSCOV

     Meio morto de cansao e com um tiro no ombro. James Bond salta para dentro do vago de trem que acabou de abrir ao meio com uma escavadeira  mas, antes de partir para cima do sujeito que est perseguindo, para e d aquela puxadinha curta no punho da camisa para alinh-la com a manga do palet. E assim, mais ou menos aos dez minutos de 007  Operao Skyfall (Skyfall, Inglaterra/Estados Unidos, 2012), fica decidido: Daniel Craig  James Bond. Em cinquenta anos de histria, 22 filmes (este, desde sexta-feira em cartaz,  o 23), 13 bilhes de dlares de bilheteria e seis intrpretes, s de Sean Connery se pde dizer isso. George Lazenby e Timothy Dalton foram Bonds ruins; Pierce Brosnan foi um bom Bond: Roger Moore foi Bond para uma faco dos fs, mas nunca chegou a convencer o restante deles; e, em Cassino Royale, de 2006, e Quantum of Solace, de 2008, Craig fora um Bond excelente. Agora, porm, ele  to dono do personagem quanto Connery jamais o foi, e o compreende melhor do que qualquer outro. A entram os mltiplos significados da ajeitada na roupa. Primeiro, Bond  um profissional consumado, e o terno  o seu uniforme de trabalho  respeito com ele. Bond desfruta o perigo e est em seu elemento natural em situaes de risco  de forma que mesmo um momento extremo lhe  longo o suficiente para acomodar no s decises estratgicas como tambm gestos corriqueiros. Bond jamais vai dar a um oponente a satisfao de perceber-lhe pressionado  e por isso prefacia a violncia com uma demonstrao de calma e arbitrariedade. E Craig nunca se divertiu tanto com Bond  e, assim, escolhe justamente o instante mais decisivo para dar uma piscadela para a plateia e lembr-la de que nem o personagem nem o seu intrprete se levam a srio demais, e a est sua virtude essencial.
     No se levar a srio no significa encarar o trabalho com leviandade. Bem ao contrrio: Skyfall transpira o empenho concentrado de seu impressionante plantel de talentos em destilar o apelo de Bond, despi-lo de todo o suprfluo e devolv-lo ento  cena em sua forma mais pura. Bond  dado como morto, e cogita aproveitar a deixa para retirar-se da ativa em definitivo. Uma exploso atinge o quartel-general do MI6. a Inteligncia britnica. M (Judi Dench), a chefe do MI6, no estava no prdio: a inteno era que ela assistisse impotente ao atentado e s mortes que ele provoca. Bond. que tem uma relao conturbada e freudiana com essa figura materna, retorna:  preciso caar o elusivo Silva (Javier Bardem). o responsvel pelo atentado, que tem contas ainda mais tortuosamente edipianas a acertar com M.
     Como visto em Onde os Fracos No Tm Vez, Bardem tanto mais brilha quanto pior seu penteado  e Silva, com sua cabeleira oxigenada e escovada,  um vilo para fazer histria. Antes de mais nada, porque o roteiro lapidar de John Logan joga pela janela todos aqueles tolos planos de dominao mundial e caadas a artefatos tecnolgicos: Silva  um ciberterrorista, uma criatura contempornea que age a distncia e almeja no qualquer espcie de nova ordem, mas a anarquia geral e o seu proveito particular. Depois porque, na interpretao de Bardem, tudo para Silva  pessoal. O que diz o protocolo sobre situaes inditas como esta?, ronrona Silva, acariciando as coxas de Bond rumo a regies cada vez mais indiscretas. E quem disse que esta  a primeira vez?, devolve Bond. Um 007 em que a cantada mais ertica  de homem para homem  o mundo realmente mudou.
     Quando Sean Connery se anunciou como Bond, James Bond pela primeira vez, em 007 contra o Satnico Dr. No, o mundo acabara de entrar na era do jato e da plula anticoncepcional e Unio Sovitica e Estados Unidos estavam  beira do confronto nuclear com a crise dos msseis de Cuba. No universo da ambio masculina, vivia-se uma fase heroica: grandes apostas, grandes gestos, grandes riscos. Um sujeito como Bond nunca ouviria a palavra protocolo  e no  por coincidncia que,  parte a licena para matar, a melhor retraduo do personagem clssico  hoje o Don Draper da srie Mad Men. O Bond de cinco dcadas adiante vive em um outro mundo, no qual M tem de prestar contas publicamente ao Parlamento e Bond precisa passar por uma verso extrema do check-up empresarial para reaver sua licena. A toda hora, algum ameaa decretar sua obsolescncia: Bond tem mais de 40, e a fila quer andar. O seu, enfim,  um mundo no qual o risco das decises executivas  tolhido e escrutinado pelo sentimento corporativo de autopreservao mesmo quando se reconhece sua necessidade. Os homens da dcada de 60 adorariam ser playboys internacionais, como Bond. Os homens  e as mulheres  desta dcada dispem de farto material, em Skyfall, para continuar invejando esse aspecto da vida do agente secreto. Mas tm tambm razes para se identificar com sua frustrao profissional.
     Nada  mais invejvel, contudo, que o solene desplante de Bond para com a opinio ou as regras alheias  e Craig, no seu mais propulsivo, enche o personagem de vigor em vista da oportunidade de uma operao clandestina para eliminar Silva e salvar M. Entrar na clandestinidade, no caso, implica retornar ao bsico: quando Q, agora no mais um engenheiro de jaleco mas sim um nerd petulante (Ben Whishaw), lhe entrega apenas uma arma e um pequeno transmissor de rdio, o filme ganha uma excitao mpar: sem canetas explosivas nem outras engenhocas absurdas. Bond s pode contar com a prpria inteligncia e audcia, mais um pente de balas e um velho Aston Martin DB5 prateado (o mesmo de Connery, homenageado aqui de mil maneiras sutis). H locaes em Istambul, Xangai e Macau, alm de um eplogo fabuloso na Esccia; mas o grosso da ao se passa em Londres, em outra manifestao bem-vinda do desejo de readquirir a essncia do personagem criado pelo ingls Ian Fleming.
     Fleming, celebremente, fora ele prprio espio. Menos conhecido  o fato de que tambm o roteirista de Dr. No. Richard Maibaum, passara pelo cinema americano de esforo de guerra, uma diviso das Foras Armadas, e que o produtor Harry Saltzman, coproprietrio da srie com Albert Cubby Broccoli, fora do departamento de guerra psicolgica. A franquia 007 comeou, portanto, atiando o pblico com aqueles fetiches curvilneos da dcada de 60, mas seus ossos eram slidos: o conhecimento combinado, de agentes de trs procedncias, sobre os meandros da espionagem. Em Skyfall, a preocupao com atualidade e verossimilhana volta a figurar entre os componentes fundamentais de um filme de James Bond. E, na direo estupenda de Sam Mendes, surge uma outra prioridade ainda: o realismo da dramaturgia.
     Mendes, que em 2000 ganhou o Oscar por Beleza Americana, de incio foi tido como uma escolha idiossincrtica (Craig, que trabalhou com ele em Estrada para Perdio, ofereceu-lhe o emprego que no tinha autoridade para oferecer depois de uns drinques a mais, mas a iniciativa foi comemorada por Barbara Broccoli e Michael G. Wilson, herdeiros da franquia). Mendes, porm, orquestra as cenas de ao com o deleite que s um diretor que raramente encontra chance de faz-las poderia ter. E, sob seu comando seguro, Craig adensa o agente secreto em direes inesperadas. Fica a par e passo com os outros timos desempenhos (todos, na verdade, descontada a Bond girl da francesa Brnice Marlohe, linda mas nem de longe to envolvente quanto a Eva Green de Cassino Royale). Judi Dench, Javier Bardem, Ben Whishaw, Naomie Harris, Albert Finney e Ralph Fiennes  que passar a ter funo decisiva na srie daqui por diante  se excedem. No conjunto, 007 nunca pareceu ao mesmo tempo to ele mesmo e to novo e original. Para a MGM, que nos quatro anos desde o ltimo filme entrou em processo de falncia, viu todas as marcas sob seu domnio ficarem em situao de incerteza e teve ento de se reorganizar, no poderia haver notcia mais tranquilizadora (tanto que seu astro j est com contrato assinado para mais dois filmes). Mais ainda porque, se Cassino Royale fora uma estreia explosiva para Craig, Quantum of Solace foi recebido com entusiasmo sensivelmente reduzido: rodado sem um roteiro fechado e duro no tom  Bond perdera sua amante e estava enraivecido e deprimido , o segundo episdio de Craig deixava entrever algo do desconforto do ator com um papel que lhe conferira notoriedade alm do negocivel. Essa fase passou: Craig agora ama Bond, e seu amor  plenamente correspondido. S resta  plateia, portanto, apaixonar-se por um e outro tambm.

007 E O LUCRO
Quanto cada intrprete rendeu na bilheteria (mdia por filme em dlares; valores ajustados pela inflao).

A BILHETERIA AJUSTADA PELA INFLAO
Como o total de quase 13 bilhes de dlares da srie se divide entre os 22 ttulos do agente secreto (em dlares).

SEAN CONNERY  o campeo  lucro 740 milhes
1962: Moscou contra 007  594 milhes
1963: 007 contra o Satnico Dr. No  455 milhes
1964: 007 contra Goldfinger  928 milhes
1965: 007 contra a Chantagem Atmica  1 bilho
1967: Com 007 S Se Vive Duas vezes  770 milhes

GEORGE LAZENBY  lucro 515 milhes
1969: 007 a Servio de Sua Majestade  515 milhes
1971: 007  Os Diamantes So Eternos  660 milhes

ROGER MOORE  - lucro 560 milhes
1973: 007  Viva e deixe Morrer  840 milhes
1974: 007 contra o Homem com a Pistola de Ouro  456 milhes
1977: 007  O Espio que Me Amava  705 milhes
1979: 007 contra o Foguete da Morte  667 milhes
1981: 007  Somente para Seus Olhos  495 milhes
1983: 007 contra Octopussy  434 milhes
1985: 007 na Mira dos Assassinos  327 milhes

TIMOTHY DALTON  o fiasco  lucro 339 milhes
1987: 007  Marcado para Morte  388 milhes
1989: 007  Permisso para Matar  290 milhes

PIERCE BROSNAN  - lucro 519 milhes
1995: 007 contra Goldeneye  539 milhes
1997: 007  O amanh Nunca Morre  487 milhes
1999: 007  O Mundo No  o Bastante  500 milhes
2002: 007  Um Novo Dia para Morrer  553 milhes

DANIEL CRAIG - lucro 657 milhes
2006: 007  Cassino Royale  682 milhes
2008: 007  Quantum of Solace  633 milhes


2. CINEMA  TANTA MGOA
Em Gonzaga  De Pai pra Filho, dois cones populares enfrentam a tarefa rdua de reconciliar suas amarguras.
ISABELA BOSCOV

     Em uma passagem deliciosa de Gonzaga  De Pai pra Filho (Brasil, 2012), um Luiz Gonzaga j clebre como rei do baio (e a essa altura interpretado pelo cativante Chambinho do Acordeon) retorna a Exu, em Pemambuco, para rever a famlia. Gonzaga acabou de ficar vivo e est desorientado; mas, no reencontro com as pessoas de seu passado, se v descontrado  e, naturalmente, em seguida ao almoo ele e o pai tomam das sanfonas para duelar um pouco. Voc  famoso, mas sanfoneiro bom mesmo  seu pai, divertem-se os convivas. Tudo que Luiz sabia sobre seu instrumento aprendeu com o pai. Quando teve de sair corrido de Exu, foi s por causa do respeito de que seu pai gozava na cidade que escapou de ser esfaqueado. Foi o pai que, um ano aps essa fuga, conseguiu localiz-lo no Cear, como recruta do Exrcito. No filme do diretor Breno Silveira que desde sexta-feira est em cartaz,  evidente o amor recproco entre os dois. Tanto quanto  patente a impossibilidade  de Gonzaga de constituir-se em uma figura paterna anloga para seu filho, Luiz Gonzaga Jr., o Gonzaguinha (Julio Andrade, em atuao notvel). Gonzago foi um colosso, um retirante pobre que com seu sorriso, seu vozeiro e seu baio mudou o cenrio cultural do pas (veja o texto ao lado). Gonzaguinha foi tambm ele um cone, para a gerao do regime militar. Mas, quando se justapem os dois personagens,  marcante o nada que a msica de um e outro tem em comum. Mesmo para um pai e um filho que pouco conviveram, e quando o fizeram foi com atrito, essa falta de contato no pode ser coincidncia;  uma declarao de divrcio.
     Silveira tem feito da dana complicada entre pais e seus filhos homens o grande assunto de sua filmografia  em 2 Filhos de Francisco, no recente A Beira do Caminho e agora em Gonzaga. O prprio diretor manifesta certa surpresa com a prevalncia do tema em seus filmes. Nunca tive problemas com meu pai, e no sei como explicar para ele essa obsesso, brinca. Gonzaga, porm, faz muito por esclarecer que o tema, da forma como aparece em seu trabalho, tem uma dimenso tambm geogrfica, por assim dizer. Em 2 Filhos, Zez Di Camargo e Luciano deixam a zona rural de Gois para se ver no mundo de So Paulo; em Caminho, um menino rfo e um caminhoneiro peregrinam entre o Nordeste e o Sudeste; em Gonzaga, o protagonista faz a longa jornada da misria para a fama, mas deixa o filho sempre para trs, no Rio, esperando-o em vo, enquanto sai pelas estradas para se apresentar  e, ao que parece, fugir. O desenraizamento , nos enredos de Silveira, uma parte inescapvel da orfandade.
     A paisagem, no entanto,  aqui mais plana que no restante do trabalho do diretor: Gonzaga no tem os vales de emoo e os picos de jbilo que fizeram de 2 Filhos de Francisco uma das maiores bilheterias do cinema nacional, e tambm no oferece a mirada direta de  Beira do Caminho. Diz Silveira que, mesmo descartando vrios trechos da fabulosa trajetria de Gonzago e se concentrando apenas no contedo das quinze horas de entrevista que Gonzaguinha gravou com o pai em 1981  as quais afinal pacificaram as mgoas mtuas , sobrou-lhe enredo para mais uns trs filmes (uma minissrie, pelo menos, vai ser feita). As vezes, porm, descartar muito no significa ter descartado o bastante: Gonzaga tem a afetuosidade farta de Silveira, mas carece do ritmo, e da implacabilidade, de seu protagonista.

O REI DO BAIO E O CANTOR DA EXALTAO
     O pernambucano Luiz Gonzaga do Nascimento (1912-1989) j fazia sucesso no Sudeste quando encomendou um chapu de vaqueiro a sua famlia, em 1947  queria homenagear o cangaceiro Lampio, que usava o mesmo adereo. A imagem do sanfoneiro trajado como sertanejo acabou se tornando simblica: nenhum artista representou to bem o Nordeste quanto Luiz Gonzaga. Cantou as alegrias e os dissabores do serto  aquelas, presentes em temas festeiros como Vem Morena, parceria com Z Dantas; os outros, representados sobretudo em Asa Branca, cano do folclore nordestino adaptada por Gonzaga e pelo letrista Humberto Teixeira. O msico foi o rei do baio, msica tradicional nordestina que surgiu do lundu.
     A biografia do sanfoneiro  atravessada pelas mazelas prprias do serto nordestino de seu tempo. Na adolescncia, teve de deixar a casa da famlia em Exu, onde nasceu, depois de ser ameaado de morte por um coronel local, que no aprovava o envolvimento do msico com a filha. Seu xito artstico coincidiu com o perodo mais ativo da migrao nordestina para os polos industriais do pas, principalmente no eixo Rio-So Paulo. Para os migrantes, o cancioneiro de Luiz Gonzaga serviu para manter uma conexo afetiva com a regio de origem. Mas seria simplista explicar o sucesso do msico como mera consequncia da saudade dos nordestinos. Em sua interpretao modernizada, o baio universalizou-se. Gonzaga fez alteraes estruturais no gnero ao reduzir sua execuo a sanfona, zabumba e tringulo, dispensando violo e flauta. Graas a ele, nos anos 50 tornou-se obrigatrio gravar baio. Assim o fizeram artistas como Carmelia Alves, Marlene, Emilinha Borba e at a americanizada Carmen Miranda. Nas dcadas seguintes, as composies de Gonzaga ainda seriam exaltadas por artistas to diversos quanto o tropicalista Gilberto Gil e o roqueiro Raul Seixas.
     J Luiz Gonzaga Jr. (1945-1991), criado no morro de So Carlos, no Rio de Janeiro, no trazia em seu genoma musical a nordestinidade do pai. Sua msica tinha caractersticas mais urbanas: ia do samba-exaltao  cano de protesto contra a ditadura militar  o que lhe rendeu conflitos familiares, uma vez que seu pai no tinha pejo de tocar para os representantes do regime fardado. Gonzaguinha no foi, como o pai, um msico que definiu e encarnou um gnero popular. Mas fez grande sucesso com canes mais interiorizadas, que abordavam temas como relacionamentos (Grito de Alerta) ou at o ofcio de cantor (Sangrando). Gonzaguinha talvez hoje no seja to lembrado pelo engajamento, mas pelo hino O que , O que ?,  aquele da pureza da resposta das crianas. Obrigatria em barzinhos de msica ao vivo,  uma cano infeliz na sua alegria meio desesperada.
SRGIO MARTINS


3. LIVROS  A MAIS GENIAL DAS AUSNCIAS
Um historiador francs reconstitui a trajetria de uma intrigante obra perdida: a pea em que Shakespeare teria feito sua verso de uma narrativa de Cervantes.
JERNIMO TEIXEIRA

     A primeira parte de Dom Quixote foi publicada em 1605. Dois anos depois, em uma festa popular no Peru colonial, j aparecia um cavaleiro caracterizado como o heri miservel e delirante criado pelo espanhol Miguel de Cervantes (1547-1616). O livro e seu protagonista muito cedo alcanaram uma popularidade prodigiosa, que no se limitou aos falantes do castelhano. Em 1628, uma pea francesa colocava em cena Cardenio, protagonista de uma das vrias histrias que Cervantes teceu em seu livro, paralelamente s peripcias do Cavaleiro da Triste Figura. Na Inglaterra, o mesmo Cardenio j aparecera como ttulo de uma pea teatral encenada pela companhia Kings Men em duas ocasies festivas na corte do rei Jaime I, entre 1612 e 1613. O texto dessa provvel comdia perdeu-se, o que por si s no seria circunstncia excepcional: um dos levantamentos mais otimistas sugere que apenas um tero das peas apresentadas nos palcos ingleses de 1565 a 1642 (quando os teatros foram fechados) teve edio impressa. Cardenio, que estaria entre os dois teros que nunca ganharam as pginas de um livro, s tem relevncia porque foi atribuda ao eminente autor titular dos Kings Men: William Shakespeare (1564-1616). A histria do provvel cruzamento dos dois gnios maiores das lnguas espanhola e inglesa  que  tambm a histria de uma ausncia, de uma gigantesca lacuna literria   reconstituda pelo estudioso francs Roger Chartier, professor do Collge de France, em Cardenio entre Cervantes e Shakespeare (traduo de Edmir Missio: Civilizao Brasileira: 294 pginas; 39,90 reais).
     O historiador francs faz um levantamento exaustivo e minudente de todas as circunstncias que cercam o texto perdido. Nas relaes de peas apresentadas na corte em que aparece Cardenio, no se informa o nome do autor.  s quarenta anos depois, em 1653, numa lista de livros registrados por um editor, que a pea  atribuda a Shakespeare e John Fletcher, dupla que tambm colaborou em Os Dois Nobres Parentes e Henrique VIII. O ttulo permite concluir com segurana que o entrecho vem de Dom Quixote, cuja primeira traduo em ingls fora publicada em 1612. Cardenio  um cavaleiro ensandecido por um amor frustrado que certo dia cruza com Dom Quixote, o fidalgo que enlouqueceu de tanto ler romances de cavalaria. A descabelada histria de Cardenio e de sua amada Lucinda comporta elementos que Shakespeare privilegiou nas comdias: traio, casais trocados, donzelas travestidas de homem. A histria, alias, foi adaptada para o palco tambm na Espanha e na Frana  com a diferena de que os textos dessas verses dramticas sobreviveram at nossos dias.
     O mistrio de Cardenio complica-se com a entrada em cena, no sculo XVIII, do dramaturgo Lewis Theobald. Em 1727, ele apresenta um texto intitulado Double Falsehood (Dupla Falsidade). O enredo  basicamente o mesmo criado por Cervantes, embora o nome dos personagens tenha sido trocado  Cardenio torna-se Julio. Theobald dizia que a pea fora adaptada por ele a partir de manuscritos utilizados nos teatros de Londres l pelos anos 1660  e que o texto desses manuscritos seria originalmente de Shakespeare. Na edio que ele mesmo fez das obras completas do bardo. Theobald no incluiu nem Double Falsehood nem Cardenio. E ele nunca apresentou os tais manuscritos reencontrados aos cticos que duvidavam da autoria shakespeariana. Fraude? Talvez. Roger Chartier tende a acreditar, no entanto, que Theobald se baseou de fato em um manuscrito reencontrado. Mesmo que o texto anterior tenha existido, porm, no h como saber quanto desse original ter sido preservado na adaptao de Theobald. E nem h como afirmar que Shakespeare tenha sido um de seus autores.
     No entanto, o nome Shakespeare sempre aparece no cartaz das vrias montagens, releituras e readaptaes que a pea de Theobald vem tendo no palco contemporneo. De forma ainda mais controversa, em 2010, Double Falsehood foi incorporado  prestigiosa coleo de obras de Shakespeare publicada pela editora Arden. Embora o prefcio do livro busque se mostrar cauteloso quanto  atribuio de autoria, na capa no constam os nomes de Theobald ou Fletcher  apenas o de William Shakespeare. Chartier mostra-se reticente com essa temeridade editorial, que mereceria ser denunciada em termos mais francos como um lance do mais baixo sensacionalismo comercial.
     A atribuio tardia de Cardenio a Shakespeare pode ter sido um equvoco. O autor de Hamlet talvez nem sequer tenha tomado contato com Dom Quixote. Mas a pea perdida sempre alimentar especulaes de acadmicos e especialistas. Reconhecimento tcito de um gigante literrio a seu par em um pas rival, Cardenio  a obra dos sonhos de todo leitor.


4. TELEVISO  NO D PARA RELAXAR
Para sries como The Walking Dead e Homeland, a regra da sobrevivncia  clara: manter a tenso  ou se lascar.
MARCELO MARTHE

     Sobreviventes de uma epidemia que transformou quase todos os seres humanos em zumbis, os protagonistas de The Walking Dead invadem uma casa abandonada e trucidam os mortos-vivos que vagam pelos cmodos. Aps conquistarem o novo esconderijo, eles esto exauridos. As opes para repor as energias no animam: a boia se resume a uma coruja e duas latas de rao para bichos de estimao. Precrio, em suma,  seu momento de paz  que no vai durar muito. Quando veem pela janela uma nova horda de zumbis, eles fogem do lugar. Em exibio no Brasil h duas semanas pelo canal Fox, a terceira temporada da srie americana se iniciou com uma sequncia memorvel: nos cinco minutos em que tudo isso ocorreu, os personagens no pronunciaram uma s palavra  o que acrescentou mais notas de desolao ao seu mundo distpico. Aquilo que se viu da at o ponto que j foi ao ar s confirma: a produo passou com louvor numa prova recorrente que se aplica a um filo da teledramaturgia americana. O crescendo da tenso psicolgica  o pio com o qual The Walking Dead vicia os espectadores. Distante dos mortos-vivos, no universo mais realista (e mais paranoico) da guerra ao terrorismo, o thriller Homeland tornou-se um sucesso explorando o mesmo recurso. E, em sua segunda temporada, veiculada no pas pelo canal FX, tambm acaba de encarar tal teste. O desafio dos produtores dessas sries  manter-se no pico da voltagem  ou quebrar a cara.
     A imagem que traduz isso est sintetizada no nome de uma tcnica da narrativa de suspense. Chama-se de cliffhanger  beira do precipcio, em traduo aproximada  o ponto em que a trama chega a uma encruzilhada capaz de lanar o pblico naquela ansiedade por saber o que vir pela frente. Em The Walking Dead e Homeland, a tcnica  levada ao extremo: salta-se de um precipcio para dentro de outro precipcio, e assim por diante.
     Nessa arte de manipular expectativas, certas regras no podem ser desprezadas. Depois de galvanizar a audincia, o thriller The Killing cometeu um pecado fatal: ao fim da primeira temporada, os roteiristas no resolveram o crime que dava mote  trama, para faturar com isso por mais tempo. S que os espectadores se sentiram trados, e a srie foi cancelada. No comeo da segunda temporada, Homeland cometeu outro delito grave: a falta de plausibilidade. No se fala da pattica ameaa do governo libans de processar os produtores por mostrar a agente bipolar Carrie Mathison (Claire Danes) atuando em uma Beirute coalhada de terroristas. A capital do pas, de fato, andava calma  mas o atentado pavoroso do ltimo dia 19 veio conferir realismo ao retrato pintado por Homeland. O problema  que a srie tambm tomou atalhos toscos, reminiscentes das marmeladas de 24 Horas  alis, dos mesmos produtores. Ao acompanhar, num gabinete em Washington, uma operao que visava a matar seu guru da Al Qaeda, o ex-militar convertido em terrorista Nicholas Brody (Damian Lewis) deu um jeito de enviar um torpedo de celular para avis-lo sobre a emboscada, e o fez bem na cara dos chefes da CIA.
     A partir do terceiro episdio, felizmente, a trama volta aos trilhos de forma espetacular. E a se percebe por que Homeland e The Walking Dead enobrecem o esporte do salto ao abismo. Seus picos de tenso no vm da pirotecnia, e sim de algo mais efetivo: a reao humana na adversidade. Se j era quente e acidentada, a relao de Carrie e Brody se torna decididamente inflamvel. Na srie dos zumbis, a ampliao do suspense se d na proporo do estreitamento das possibilidades: num mundo to hostil, s resta viver numa penitenciria  e o preo disso est estampado no embrutecimento do heri Rick Grimes (Andrew Lincoln). Enquanto ele no relaxa, a audincia sobe.


5. TELEVISO  PASSARELA INGLRIA
Salve Jorge reedita a novela em estilo escola de samba.

     Duas personagens surgem numa sauna em Istambul, e uma delas informa: Voc sabia que o banho turco  uma tradio aqui na Turquia?. A observao  de extrema utilidade, j que muitos podem achar que o banho turco  tpico da Bolvia  no deixa duvida: o Brasil entrou num novo ritmo de novela das 9 da Globo. Saiu do ar a trama enxuta e concentrada de Avenida Brasil e estreou um folhetim que segue a lgica do desfile de escola de samba  uma tradio, claro, no mundo extico da noveleira Glria Perez. Em Salve Jorge, ncleos coloridos se sucedem na passarela  h a ala da Turquia, a ala do Complexo do Alemo e a ala da escravido sexual (em que um dos destaques encarnado por Carolina Dieckmann, j exibiu os seios nus). Tudo costurado num samba-enredo com expresses turcas e rimas sofrveis. Mas a novela arrasa nas fantasias. Com seus shortinhos ginecolgicos, Morena (Nanda Costa) inaugura a era das heronas-cachorras. Ao ver o mocinho Tho (Rodrigo Lombardi) naquele fardo  la dom Pedro I, d at saudade de sambar na avenida. Em outra avenida.
M.M.


6. VEJA RECOMENDA

DISCOS
SUB ROSA, JESSE HARRIS (SOM LIVRE)
 O cantor e compositor americano Jesse Harris  conhecido como o autor de Don Know Why, o maior sucesso da carreira de Norah Jones. Embora tenha seus ps fincados no folk e no pop de seu pas, h tempos ele ensaia uma incurso brasileira. Harris criou parcerias com o guitarrista paulistano Chico Pinheiro, foi gravado por Paula Toller e fez o show de abertura das apresentaes de Norah no pas. Em Sub Rosa, ele d mostras de que o namorico est virando compromisso srio. O disco foi praticamente gravado no Brasil, com participao de msicos como o baixista e guitarrista Dadi e a cantora Maria Gad. O clima carioca est refletido em algumas das composies. Rocking Chairs, que Harris canta ao lado de Norah Jones, traz forte influncia da bossa nova. Its Been Going Round lembra uma faixa dos tropicalistas gravada no exlio. A participao do guitarrista Bill Frisell, do cantor folk Conor Oberst e da prpria Norah, porm, d um contrapeso s brasileirices. I Wont Wait, por exemplo, interpretada em dueto com Oberst, est mais para o folk. E at a chanson francesa tem seu momento, em Tant Pis, na qual Harris divide os vocais com Melody Gardot.

CHANNEL ORANGE, FRANK OCEAN (UNIVERSAL)
 Natural de Nova Orleans, Frank Ocean radicou-se em Los Angeles depois que o estdio que tinha na cidade natal foi destrudo pelo furaco Katrina. Embora seja um compositor consagrado no meio musical americano, s fez sua estreia-solo neste ano, com Channel Orange. O disco foi precedido pela revelao da homossexualidade do cantor  que por ironia integrava o combo de hip-hop Odd Future, notrio por letras machistas e homofbicas. Houve at quem suspeitasse de um lance de marketing para vender o disco, que foi direto para o topo das paradas americanas. Mas a qualidade musical de Channel Orange dispensaria um lance to barato. O lbum tem mais a ver com o soul de dcadas passadas do que com o hip-hop agressivo do Odd Future. Entre as influncias mais evidentes do cantor esto Stevie Wonder, Prince e DAngelo, que a seu modo elevaram a categoria do funk e do soul. As letras abordam temas que vo da histria de Clepatra (citada na cano Pyramids)  religio (Bad Religion). Esta, alis,  a grande cano do disco: uma balada de cortar os pulsos, em que Ocean divide suas divagaes sobre f com um motorista de txi.

LIVROS
A MULHER DA GARGANTILHA DE VELUDO E OUTRAS HISTRIAS DE TERROR, DE ALEXANDRE DUMAS (TRADUO DE ANDR TELLES E RODRIGO LACERDA; ZAHAR; 368 PGINAS; 34,90 REAIS)
 Folhetinista de enorme sucesso popular, o francs Alexandre Dumas (1802-1870) era um mestre das histrias de capa e espada, como Os Trs Mosqueteiros. Como bom romntico, porm, tambm fez suas incurses pelo conto de horror. As duas obras enfeixadas neste volume mostram que Dumas foi, sim, um habilidoso criador de literatura gtica. 1001 Fantasmas traz um grupo de amigos reunidos na casa do prefeito de uma cidade interiorana: para se entreterem, eles contam histrias de fantasmas  um modelo de coleo de contos com mltiplos narradores que lembrar, ao leitor brasileiro, Noite na Taverna, de lvares de Azevedo. A Mulher da Gargantilha de Veludo traz como protagonista um mestre do conto de horror, o alemo E.T.A. Hoffmann (1776-1822). Em visita a Paris no auge da fase do Terror da Revoluo Francesa, ele se apaixona por uma misteriosa bailarina. Esta edio conta com um bom aparato de notas dos tradutores e traz ilustraes originais dos livros de Dumas.

PAULO GRACINDO  O ETERNO BEM-AMADO, DE GRACINDO JUNIOR E MAURO ALENCAR (GUTENBERG; 256 PGINAS; 67 REAIS)
 Em 1972, a censura fez uma interveno na novela Bandeira 2, sucesso de Dias Gomes exibido pela Globo. Sob a justificativa de que o bem deveria triunfar sobre o mal, exigiu-se a morte do bicheiro Tuco, personagem que consagrou o ator Paulo Gracindo. Figurantes espalharam, porm, que o ator tinha morrido  boato que arrastou 3000 pessoas  gravao. Foi uma loucura. Como eu no poderia perder meu prprio enterro, sa escondido para ver a reao do pblico, contaria ele. Acumulando atuaes no rdio, teatro, cinema e como apresentador e humorista na TV, Pelpidas Guimares Brando Gracindo (1911-1995) comeava a ser entronizado em sua faceta mais conhecida: a do intrprete de grandes personagens das novelas. Na biografia escrita pelo filho Gracindo Junior e pelo especialista Mauro Alencar, histrias como a do enterro de Tuco se mesclam  anlise criteriosa das razes que fizeram sua fama e prestigio. Alm de depoimentos de artistas e executivos da televiso, o volume rene imagens histricas de Gracindo em seus papis marcantes, como o coronel Odorico Paraguau, de O Bem-Amado.

DVD
O PALHAO  EDIO ESPECIAL (BRASIL, 2011. IMAGEM)
 Nos lanamentos em DVD e Blu-ray de filmes americanos, so praxe os extras copiosos, com documentrios, entrevistas e esta ou aquela gracinha; nos ttulos nacionais, eles so uma raridade. Nada mais adequado, ento, que este encantador trabalho escrito, dirigido, montado e estrelado por Selton Mello, que concorrer a uma vaga entre os cinco indicados ao Oscar de produo estrangeira, se proponha a inaugurar a tendncia. Nesta edio, um disco traz o filme em si, sobre o relutante palhao Benjamin, e seus esforos para manter na estrada o circo mambembe de que seu pai (Paulo Jos)  dono. No segundo disco, alm do making of que apresenta o elenco e a equipe tcnica (destaque para o personal palhaator que treinou Selton e Jos nas manhas do humor fsico de picadeiro), h o pequeno documentrio Relicrio, um breve mas inspirado apanhado sobre o mundo do circo. Com apenas vinte minutos, ele traz depoimentos tocantes de atores como Jackson Antunes e Moacyr Franco  alis, responsvel por um dos grandes momentos do longa.


7. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1. Cinquenta Tons de Cinza  E.L. James. INTRNSECA 
2. Cinquenta Tons Mais Escuros  E.L. James. INTRNSECA
3. Toda Sua  Sylvia Day. PARALELA 
4. A Sombra da Serpente  Rick Riordan. INTRNSECA
5. A Guerra dos Tronos  George R.R. Martin. LEYA BRASIL 
6. Um Porto Seguro  Nicholas Sparks. NOVO CONCEITO 
7. A Dana dos Drages  George R.R. Martin. LEYA BRASIL 
8. Inverno no Mundo  Ken Follett. ARQUEIRO 
9. Cida  A Empreguete  Leusa Araujo. CASA DA PALAVRA
10.  Escolha  Nicholas Sparks. NOVO CONCEITO 

NO FICO
1. Nada a Perder  Edir Macedo. PLANETA
2. A Queda  Diogo Mainardi. RECORD 
3. Carcereiros  Drauzio Varella. COMPANHIA DAS LETRAS
4. Dilogos Impossveis  Luis Fernando Verissimo. OBJETIVA
5. One Direction  Biografia  Danny White. BEST SELLER 
6. No H Dia Fcil  Mark Owen e Kenin Maurer. PARALELA 
7. Uma Breve Histria do Cristianismo  Geoffrey Blainey. FUNDAMENTO 
8. Para Sempre  Kim e Krickitt Carpenter. NOVO CONCEITO 
9. O Pas dos Petralhas II  Reinaldo Azevedo. RECORD 
10. Nunca Fui Santo  Marcos Reis e Mauro Beting. UNIVERSO DOS LIVROS 

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1. Agapinho  gape para Crianas  Padre Marcelo Rossi. GLOBO 
2. Eu No Consigo Emagrecer  Pierre Dukan. BEST SELLER 
3. Desperte o Milionrio que H em Voc  Carlos Wizard Marins. GENTE
4. Transforme Seus Sonhos em Vida  Eduardo Shinyashiki. GENTE
5. Casamento Blindado  Renato e Cristiane Cardoso. THOMAS NELSON BRASIL 
6. O Monge e o Executivo  James Hunter. SEXTANTE
7. gape  Padre Marcelo Rossi. GLOBO 
8. Encantadores de Vidas  Eduardo Moreira. RECORD
9. Nietzsche para Estressados  Allan Percy. SEXTANTE
10. Mentes Brilhantes  Alberto DellIsola. UNIVERSO DOS LIVROS 


8. ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  DATA VENIA
     Com o julgamento da Ao Penal 470, vulgarmente apelidada de mensalo (big monthly stipend, segundo a revista The Economist), chegando ao fim, a coluna sente-se liberada para divulgar o que ocorre nesse evento entre todos sagrado e secreto que  a hora do lanche dos ministros do Supremo Tribunal Federal. Segue-se transcrio de gravao clandestina feita no local.
     Presidente (entrando)  Sentemo-nos. Com o nmero regimental, declaro aberto este nosso sempre bem-vindo momento de descontrao e fruio, momento que at sou tentado a classificar, com o poeta, de luxo, calma e voluptuosidade. A mesa, como vossas excelncias sem dvida se do conta, com a lucidez que os caracteriza, est posta. Para melhor compreenso do que temos  frente, um vade mecum gastronmico, se  que posso me expressar assim, ou cardpio, como se diz popularmente, encontra-se  frente de cada um.
     Ministro A  Com a devida vnia, se vossa excelncia me permite, eu o chamaria de charta, antes de vade mecum. Charta em latim significa papel, mas tambm uma folha escrita, e veio a gerar carta em italiano e carte em francs, termos usados, entre outros sentidos, tambm no deste cardpio to singularmente brasileiro.
     Presidente  Agradeo a observao sempre enriquecedora de vossa excelncia.
     Ministro B  Se me  permitido um adendo, tambm entre ns carta, do latim charta/chartae, tem esse significado de ementa, lista, prerio.
     Presidente  Agradeo por igual a pertinente colaborao de vossa excelncia.
     Ministro C (ao que se conclui, lendo o cardpio)  Eu apreciei sobremaneira a empadinha que nos foi oferecida ontem, mas vejo com tristeza que hoje no consta do cardpio.
     Ministro D  Se vossa excelncia me permite, o prato com as empadas est sobre a mesa.
     C  Como posso aceitar isso? Quod non est in actis non est in mundus, qual seja, o que no est nos autos no est no mundo. Mutatis mutandis, permito-me concluir, por analogia, que quod non est in cardpio  ou in charta, como bem lembrou o eminente colega  non est in mundus.
     D  Se vossa excelncia se tivesse dignado a levantar os olhos da charta...
     C  No entendo a ironia. Vossa excelncia quer me fazer crer que no devemos confiar no cardpio? Esta corte conta com servidores da mais alta qualificao. So impecveis na criteriosa disposio da toga sobre nossos ombros como o so nos cuidados da cozinha e na preparao do cardpio respectivo. Em tantos anos de tribunal, jamais observei a existncia na mesa de item que no constasse do cardpio. Ademais, se algo a vida me ensinou,  respeitar o que est escrito. Verbi votent, scripta manent.
     Presidente  Vossa excelncia expressa-se com a perspiccia costumeira e apresenta justificados argumentos, mas me permito esclarecer que as empadas realmente se encontram sobre a mesa, mesa esta que, no resisto a acrescentar, com o poeta das Gerais,  de madeira mais de lei que qualquer lei da Repblica.
     C  Agradeo a observao de vossa excelncia. Quero manifestar no entanto, senhor presidente, minha mais veemente repulsa  tese de que se deve observar o que h na mesa antes de consultar o cardpio, tornando-o assim (ao cardpio) instrumento absolutamente despiciendo.
     D  Isto  um desrespeito! (Ouve-se rudo que parece ser de chute desferido por baixo da mesa.)
     C  Vossa excelncia no admite discordncia? (Rudo de chute igual.)
     D  Vossa excelncia faz vistas grossas! (Rudo do que  sem dvida o prato de empadas lanado  cara do oponente.)
     C  Vossa excelncia no me convencer com argumento dessa natureza. (Travessa, parece que de um bolo, pelo rudo fofo, arremessada em resposta.) Doravante, considerarei o cardpio cum grano salis. (Barulho de empadas, tortas e bolos zunindo no ar, pratos que se espatifam. Algum tenta ser ouvido, ao fundo.)
     Ministro K  Por falar nisso, dada a mxima vnia, vossa excelncia me passaria o sal? (Rudos do que parecem ser socos e pontaps. Interjeies de dor. A gravao se interrompe.)


